12/21/2017

N de Necrose






Quando a minha mãe morreu, ela estava pesando 262kg.

Quando criança, eu nunca entendi porque minha mãe não podia vir às reuniões, às gincanas escolares ou pelo menos me buscar. Era sempre uma babá ou um vizinho me levando para a escola, pelo menos até eu ter idade suficiente para conseguir pegar o ônibus sozinho.
Sempre que eu chegava em casa, ela estava caída em uma cadeira, seu queixo gotejava com gordura e molho de qualquer comida de micro ondas que ela tivesse comido.
A nossa casa inteira fedia, com o cheiro de manchas de suor ensopadas em gordura e o aroma mofado de um carpete deixado sozinho por anos. Eu fiquei lá por anos, a minha infância inteira sendo desperdiçada nessa casa apodrecendo.
Eu não sabia antes, mas agora eu sei que uma parte de mim sempre sentiu a doença que havia nisso, a doença que estava devorando tudo.

Quando comecei a crescer, a minha ignorância se tornou nojo. Era meio que uma combinação entre vergonha e medo; vergonha, pois era dali que eu tinha vindo, que era aquilo que eu poderia me tornar, e medo que ela fosse morrer um dia, morrer e me deixar sozinho nesse mundo.
Eu cresci, furioso. Por que ela não pode melhorar? Por que ela não pode simplesmente levantar e andar até mais longe que até a cozinha, talvez até fora de casa...? Uma parte de mim queria deixá-la morrendo de fome, talvez mantê-la implorando por comida até que ela derramasse toda aquela gordura de seu esqueleto. Mas ela ainda era a minha mãe, eu não podia fazer isso com ela. Ela era a única pessoa que eu tinha. Ainda assim, ter que esfregar entre sua pele e toda a sua gordura flácida com um pano úmido todas as noites, vesti-la e até mesmo levá-la até o banheiro começou a acabar comigo.

Você tem que entender do que eu estava fugindo quando eu entrei na faculdade de medicina em outro estado. Pela primeira vez na minha vida, eu não era responsável por aquela porca gorda que era a minha mãe. Ela havia ficado na nossa entediante cidade no meio-oeste, com um cuidador, pago com o seu seguro de vida. E eu ficaria livre para viver a minha vida. Foi isso o que eu pensava.
Só que sempre há uma coisa nesse tipo de plano, sempre há alguma coisa que vai te deixar pra baixo e vai se alimentar de todas as suas esperanças até não sobrar mais nada. Pra mim, foi a necrose da minha mãe. Se você não sabe o que é, aqui está uma breve explicação. Necrose: é a morte prematura das células em um tecido vivo.

O que isso realmente significa é que ela estava apodrecendo em uma jaula feita com a sua própria carne. O peso do corpo dela tinha esmagado a carne de suas costas, fazendo o sangue parar de circular, e fazendo o tecido começar a morrer.
Isso significava que eu tinha que voltar pra casa e cuidar dela de novo, depois de só 26 dias de liberdade. Eu voltei ao odor familiar de urina, suor e mofo; mas agora estava tudo misturado com o cheiro amargo e doentio de carne apodrecendo.
Ela não estava em sua cadeira, como de costume. Em vez disso, ela estava desmaiada em um colchão em um quarto que ela não usava há muito tempo, as molas da cama rangiam sob seu peso. Ela estava vestida com uma simples camisola azul, quase como uma roupa de hospital. Levantando a borda inferior da sua camisola, meus olhos puderam ver que ela estava apodrecendo.

Parecia até que algum animal raivoso tinha mordido um pedaço dela, exceto que não tinha nenhuma ferida em carne viva. Em vez disso, havia um pedaço de carne preta, coberta por sangue seco que escorria das rachaduras das feridas. De repente, a superfície apodrecida murchou, e minha mãe se virou para me ver.

Sua testa estava encharcada com suor, seus olhos se afastando dos meus. A vergonha estava estampada em seu rosto, mas era escondida por um sorriso fraco. Não. Eu não estava aguentando isso. Eu saí do quarto, fechando a porta. Eu iria lidar com ela mais tarde. Em vez disso, eu fui arrumar as minhas malas.
Meu vizinho, Michael, levantou sua mão e acenou. Olhando direito, percebi que era só um tronco. As coisas mudaram por aqui, muito mais rápido do que eu percebi. E as coisas mudariam ainda mais rápido do que eu imaginava.

Isso foi um erro.

Certa noite, quando ela pensou que eu estivesse dormindo, eu estava a observando de longe, na escuridão.
Vi sua mão encostar em um buraco de carne podre na sua coxa. Suas unhas raspando e coçando o osso exposto. Ela estava tremendo e gemendo, obviamente sentindo uma dor extrema. Ela pegou suas mãos, trêmulas e melequentas e as enfiou na boca. Eu me engasguei em silêncio, quase vomitando, quando vi ela lamber uma gosma branca entre seus dedos, fazendo barulhos altos com seus lábios.
No dia seguinte, eu cobri sua ferida com várias camadas de curativo, e tentei esquecer aquela imagem. Eu ainda tenho pesadelos sobre isso.

Eu vi ela fazer isso várias outras vezes depois disso, e eu me afastava em todas as vezes.
Acho que o único motivo pelo qual eu não falei com ela sobre isso é porque isso se tornaria muito real, me forçando a reconhecer aquilo que eu tinha visto.
Ela estava comendo sua própria carne, amarga e apodrecendo, e eu estava deixando ela fazer isso.
Quando ela finalmente morreu de uma infecção sanguínea, eu nem conseguia respirar, de tão contaminado que o ar estava pelo cheiro doentio da sua morte. Ela perdeu 26kg nesse ponto; às vezes eu me pego pensando na quantidade de sua própria carne que ela havia comido.
Enfim, eu tive que ligar para um guindaste para levar os restos mortais da minha mãe.
De certa forma, isso era a parte mais trágica de sua morte: aquela foi a primeira e a última vez que ela saiu de casa.


Tradução: Misaki Mei - Facebook

Bons Pesadelos...

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