7/31/2017

MEMÓRIA - Yarin S. De Melo







A noite era fria, e a ausência de outra pessoa para dividir a cama apenas servia como um lembrete constante do acidente.
O frio, porém, era mais profundo, e não se manifestava apenas na ausência de calor. Na verdade, este era o tipo de frio que não pode ser medido em graus, sejam Celsius ou fahrenheit. É o tipo de "abaixo de zero" que só pode ser sentido na forma de uma profunda ausência, que te faz desejar apagar o fogo de seu coração e ficar na cama... “Só mais aquele dia”.

Eu me pergunto aonde me perdi. “O essencial é invisível aos olhos”, ou ao menos era o que o principezinho dizia... Todas as noites, antes de dormir, me questiono em que momento eu deixei de ter uma alma limpa e uma mente pura e passei a chorar por paz. Mas a resposta é tão ausente quanto à satisfação em meu coração.
Eu costumava rir em parques e flutuar como um balão vermelho em direção ao infinito azul da abóbada celeste. Mas hoje eu apenas reclamo e choro em minha cama. Quem eu sou? Com certeza um impostor em minha própria vida.
Os dias nem sempre são tão ruins, e nos melhores, eu até mesmo me permito esquecer o que eu perdi.
Mas este não é um bom dia...

O som vazio das palavras ditas apenas em pensamentos, é cortado pelo estampido agudo de vidro de se quebrando. Por um segundo, me recordo de um para-brisa se partindo, e então, percebo que o som veio da cozinha.
“Tem alguém invadindo a casa!” Este pensamento invade minha mente da mesma forma que a água invade um carro que acabou de ser arremessado de uma ponte em direção ao rio. É uma sensação familiar, e isso é assustador.
Certifico-me de ter ouvido direito, e espero longos segundos por um barulho de confirmação. Quando meu coração finalmente se permite desacelerar, o som vem de novo... O som de uma cadeira de madeira sendo arrasada e de gavetas sendo abertas.
Meu coração esfria, e o medo me afoga, como água nos pulmões. Eu estremeço e penso baixinho comigo mesma que, talvez, se eu ficar bem quieta e não me mexer, ele pense que eu estou morta e resolva simplesmente roubas as coisas e ir embora.
Olho minha mesa de cabeceira e vejo meus medicamentos. Ao lado da caixa, repousa um bilhete escrito a mão, por uma letra muito familiar. Sem meus óculos mal consigo distinguir as palavras escritas, e só consigo ler os seguintes dizeres: “Tomar”, “dia” e “al”. Eu simplesmente assumo que o bilhete me diz que eu tenho que tomar duas cápsulas por dia.
Esperando que aquele medicamento possa servir de calmante, engulo-o ali mesmo.
Os minutos passam lentos e eu aceito, com uma estranha satisfação, que a morte virá. Penso nela quase com um alento. Porém, de súbito me recordo: MEU FILHO ESTÁ SOZINHO EM SEU QUARTO, QUE FICA AO LADO DA COZINHA! Levanto-me, sinto meu corpo pesado como se tivesse envelhecido décadas, mas me forço a andar. Escoro na parede e perco o fôlego, sinto minha vista escurecer e minha pressão baixar, mas mesmo assim, me faço seguir em frente.
Ignoro o perigo de um assaltante armado e passo pelo corredor que da acesso a cozinha e ao quarto. Ao olhar para o cômodo onde o ladrão deveria estar vejo, iluminado apenas pela luz de uma janela intacta, meu filho.
Ele corre para seu quarto, com certeza com medo da bronca que irá levar. Recupero o fôlego e vou atrás dele.
Ao chegar lá, percebo que o cômodo está vazio. Vejo seus brinquedos, parados como estátuas, e seus retratos, que servem como uma janela para o passado. Vejo a cama arrumada e recoberta por uma fina camada de poeira. Neste mesmo momento, meus olhos também se cobrem, mas não por poeira, e sim por uma fina película de lágrimas. A visão me faz retomar a memória, não foi só meu marido que se foi naquele dia...
Caminho lentamente até seu armário, suas roupinhas estão intactas, como se ele tivesse acabado de deixar o lugar. Ao me virar para o espelho, vejo o rosto de uma mulher velha, rugas profundas e cabelos cabelos, além de uma boca que parece não ter sido feita para sorrir.
Ali parada, me lembro do significado do bilhete que eu mesmo escrevi: “Tomar duas vezes ao dia, por causa do alzheimer”.
Sento-me na cama, e percebo que os piores dias não são aqueles em que eu me lembro, mas sim, aqueles em que eu me esqueço.


Por Yarin S. De Melo.
(Instagram: Yarinnox)


Bons Pesadelos...