6/15/2016

Conto: Taranzã

Autor: Guilherme Moraes



Quando eu era pequeno, lembro de escutar apreensivo as histórias do meu avô, ele era um velho sargento aposentado que havia trabalhado muitos anos em missões humanitárias, em especial na Amazônia. Me recordo de uma que assustou bastante eu e meus primos, mas achamos que era apenas uma história para fazer com que não saíssemos a noite na fazenda que ele mantinha desde que havia se aposentado.

Ele nos contou que havia uma lenda antiga entre os povos ribeirinhos, que nas matas do Brasil existiam pequenos seres peludos de aproximadamente 1,20 metros, dentes afiados e olhos vermelhos que se alimentavam de qualquer animal de sangue quente, eles tinham um gosto especial pela carne humana e eram frequentes os casos de pessoas desaparecidas nas matas de todo o país. As autoridades sempre abafavam os casos e as famílias nunca voltavam a ter notícias de seus entes.

Esses pequenos seres eram ágeis e se moviam tanto pela terra quanto por sobre as árvores e assim que localizavam seus alvos, os seguiam e esperavam momentos de distração para capturar a próxima refeição. Eram exímios caçadores e trabalhavam em bando, os antigos que afirmam ter escapado de ataques narravam que dois deles pegavam as pernas da primeira vítima, enquanto outros desciam das árvores e pegavam os demais.

Mesmo com a baixa estatura, eram fortes e capazes de imobilizar um adulto e seu terror espalhado pelas comunidades em especial do norte do país fez com que recebessem um nome: Taranzãs, que segundo relatos se assemelha ao grito proferido por eles após um ataque bem-sucedido. No sudeste do país, meu avô dizia que existiam relatos semelhantes, mas, no entanto, os pequenos seres tinham aperfeiçoado suas habilidades e assim que localizavam um alvo, geralmente jovens que saiam a noite em áreas próximas de florestas ou estradas de terra, seguiam a vítima e a capturavam em sua casa durante o sono.

Todos os relatos de sobreviventes eram muito parecidos e a descrição dos taranzãs era perturbadoramente semelhante. Após escutar a história lembro que eu e meus primos na época com pouco mais de 12 anos fomos para nossas camas, com medo, porém sem acreditar muito na veracidade do conto. Cada um seguiu seu rumo quando cresceu e eu resolvi seguir os passos de meu avô e também fui para a carreira militar. Para minha surpresa em minha primeira missão na Amazônia escutei um relato dos pequenos seres e fui advertido por uma senhora a tomar cuidado nas matas durante a noite e junto com o conselho, a velha anciã me deu um pequeno amuleto, que era para trazer a boa sorte.

Era uma missão de 3 meses, estávamos no final do 2 quando fomos para um treinamento de sobrevivência na mata que duraria 3 dias. Eu não acreditava em superstições, mas mesmo assim levei o velho amuleto que havia ganhado.

Já havia passado da metade da noite e estávamos em reconhecimento de terreno, a única iluminação disponível eram as fracas lanternas que os soldados carregavam em seus capacetes, estava tudo calmo e a maior preocupação de todos era cruzar com animais selvagens.

Escutamos um barulho no meio da mata e quando viramos para olhar, um grito, o Cabo Ferreira estava sendo arrastado. Acreditamos ter caído em uma emboscada de algum grupo de traficantes, já que não eram raros os laboratórios de cocaína na região. Todos estavam apreensivos, quando um novo grito, algo pula em cima do Almeida, para minha surpresa era algo muito parecido com um macaco, exceto pelo tom aterrorizante e os olhos vermelhos, a criatura deu uma mordida no pescoço do soldado que caiu na hora e foi arrastado para o meio da mata.

Todo o batalhão ficou aterrorizado e saiu em retirada, escutávamos barulhos por toda a mata, folhas sendo amassadas, árvores mexendo e pequenos grunhidos, eu já não tinha dúvida, eram os taranzãs, tentamos nos proteger, disparávamos em vão com nossas armas e, um a um, meus colegas eram arrastados. Escutávamos os gritos dos capturados longe e decidimos voltar para salvá-los, era uma missão suicida. Voltamos para o local do primeiro ataque e começamos a seguir o rasto de sangue. Aparentemente os taranzãs haviam desistido de pegar todos, os barulhos haviam cessado e tudo estava horripilantemente calmo.

Seguimos por alguns metros, erámos 3, vimos um clarão no meio da mata e cuidadosamente nos aproximamos. Quando chegamos, era uma espécie de acampamento, devia haver pelo menos 80 criaturas em um tipo de ritual macabro, nossos amigos estavam esquartejados, suas cabeças enfiadas em estacas, seus peitos abertos com o coração retirado e todos os taranzãs se ajoelhavam na frente de um líder, um taranzã de quase 2 metros de altura, tinha os pelos brancos e o rosto manchado com sangue, como se fosse um guerreiro.

Batemos em retirada, estavam todos mortos, não tinha o que fazer. Nas proximidades do acampamento não havia nenhum sinal de animais e parecia que até a mata respeitava o espaço das criaturas, era algo tão macabro a frieza com que eles tratavam a morte e suas vítimas que aquilo ficou para sempre marcado na minha memória. Os 3 sobreviventes relataram aos superiores o acontecido e fomos advertidos a nunca mais falar sobre isso, o caso acabou sendo prescrito no quartel e a memória da morte dos nossos amigos passou a ser obra de traficantes. A história acabou percorrendo o quartel e, com o passar do tempo, virou uma lenda para assustar os novatos, mas os que estiveram presentes no dia, conhecem a verdade e você? Tem coragem de ir na mata a noite?




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Bons Pesadelos...