12/19/2013

Azar em Família

Eram cinco da manhã. Os primeiros raios de sol já saiam das frestas da veneziana. O despertador toca, e Sandra afasta o braço da filha de seu corpo e levanta da cama para mais um cansativo dia de trabalho. De pé ao lado da cama, lança um olhar caloroso para Milena. É a cara do pai...



Sandra se arruma rápido e vai preparar o café da manhã da filha que, ao acordar um pouco mais tarde, deveria ir à escola. Essa era a sua rotina desde que aquilo aconteceu.



***

Três anos atrás, Sandra, então casada com Roberto, um excelente marido e pai, moravam em São Paulo com Milena. Sandra amava muito Roberto e era feliz, mas sempre deixou claro que não gostava de morar em São Paulo. Ela nascera em um pacato bairro em Florianópolis e nunca se acostumara com o ritmo frenético da cidade de São Paulo. Ela achava que Milena, com nove anos na época, deveria crescer em um
ambiente mais familiar, o que, apesar de espaçoso, o apartamento não proporcionava.

Com o descontentamento aflorando, sem que ela percebesse, acabava soltando inúmeras indiretas a Roberto durante o dia. Roberto não se chateava, pois, no fundo, sabia que havia lógica naquilo que a esposa falava. Ele queria fazê-la feliz, logo, apesar de ficar um pouco triste por deixar o emprego em uma firma de construtoras respeitada e que garantia um ótimo salário, fez a vontade da esposa.

Se mudaram para o bairro Trindade, que fica em uma posição central na Ilha de Santa Catarina. Não era o bairro onde Sandra crescera, mas era tão perto que sentia como se fosse. A casa que compraram era linda e lembrava as casas americanas que Sandra via nos filmes. Só não entendia por que não já havia sido vendida... Custava tão barato que eles nem titubearam para comprá-la. Era quase como se imobiliária quisesse se livrar dela... Roberto logo arrumou um emprego em uma construtora do centro e os meses foram passando tranquilos na casa onde escolheram morar.

Naquele dia, Sandra havia levado Milena ao Shopping para assistir Alvin e os Esquilos 2. Por conta da grande quantidade de pessoas na fila, só conseguiram ingressos para um sessão um pouco mais tarde do previsto e, por isso, chegaram em casa tarde.

Chegando em casa, viu que Roberto já havia guardado o carro na garagem. Também pudera... Já eram mais de onze da noite de um sábado. Depois de guardar o carro na garagem – que era um compartimento separado da casa, no jardim –, foi em direção a porta, pôs a mão no bolso e percebeu que esquecera a chave dentro do carro, no porta-luvas. Milena estava inquieta desde o caminho e ficou seguindo abraçada com a mãe a todo momento. Sandra estava adorando o carinho da filha, apesar de ter de andar toda atrapalhada para pegar a chave, com Milena abraçada. Enfim pegou a chave, e abriu a porta. A casa estava escura.

Apertou o interruptor, mas a luz não acendeu. Seguindo o corredor, ainda com a filha abraçada e inquieta, foi em direção à sala. Tentou acender a luz, mas também não funcionou. Estranho.

-Roberto? Chegamos! Acho que está faltando luz. Cadê você? – gritou Sandra.

-Estou aqui – gritou Roberto, com a voz vinda do quarto, no segundo andar.

Elas subiram a escada e Sandra abriu a porta. Quando acendeu a luz, a cena mais terrível que já vira na vida estava diante de seus olhos.Com o pescoço preso a uma corda amarrada no teto, Roberto jazia suspenso,
com um corte muito profundo, do pescoço até o púbis. Seu corpo fazia um movimento pendular, e seus olhos olhavam friamente em direção à porta, onde estavam as duas.

Sandra ficou atônita e correu com a filha, descendo as escadas e ligando para polícia imediatamente. Ela não parava de tremer. Não conseguia acreditar. Aquilo não poderia estar acontecendo. Não com ela.

As coisas aconteceram, mas Sandra estava fora de si. Lembrava vagamente das luzes das viaturas ao seu redor, dos legistas levando o corpo... Só tinha certeza que Milena ficou parada, calada ao seu lado. E da voz de Roberto. Daquela voz. “Estou aqui”. Devia estar enganada, claro. As lembranças ficaram confusas e, por isso, misturei um pouco as coisas. Roberto estava morto.

Posteriormente, após os levantamentos, os policiais não souberam explicar como aquilo acontecera. Todas as portas estavam trancadas, tudo na casa estava na mais perfeita ordem. Nada havia sido levado. Era algo muito estranho.Desde então, Sandra havia arrumado outro emprego. Não se mudaram da casa.

Sandra não era nada supersticiosa, logo, não acreditava em assombrações ou nada do tipo. Na verdade, ela queria ficar no lugar onde tivera os momentos mais felizes de sua vida. Milena que mudara bastante. Transformou-se em uma menina quieta e calada, que só falava quando havia realmente necessidade. Também ficou extremamente carente, demonstrando carinho pela mãe sempre que possível, pois Sandra trabalhava o dia inteiro e só chegava tarde da noite, por conta dos dois empregos.

Ambas ficaram muito carentes, na verdade. Desde que Roberto se foi, elas passaram a dormir juntas. Quando deitavam na cama e Milena a abraçava para dormir era um dos únicos momentos em que Sandra se sentia confortada. Todas as noites Sandra apagava a luz do quarto e Milena se deitava atrás da mãe e a abraçava. Depois sentia a mão da filha acariciando sua nuca e só assim dormia.

***

Milena, depois de chegar da escola ficava sozinha o resto do dia, até Sandra chegar do trabalho, já tarde da noite. A casa era muito sombria, enquanto estava sozinha. Tudo parecia a encarar. Era como se houvesse alguém ali a observando. À medida que o tempo passava, a sensação só piorava. Naqueles últimos dias, ela nem conseguia ficar na sala pra assistir tv. A menos, é claro, que ficasse toda enrolada com o cobertor.

A sensação foi piorando de tal forma que ela via, com a visão periférica, como se alguém estivesse mesmo ali. Quando ela virava bruscamente os olhos em direção a essa “pessoa”, que pensava estar de preto, não via mais nada. No começo ela via esse “alguém” raramente, mas agora não. Várias vezes por dia ela se deparava procurando aquela sombra. Os calafrios a tomavam, e ficava rezando pra sua mãe chegar logo, para que pudesse ficar juntinho dela e abraça-la. Só assim se sentia protegida. Nunca falava nada para ela, pois sabia que não acreditaria. Ela passou meses pedindo para, ao menos, mudar de quarto, mas ela nunca permitia. Elas dormiam no mesmo quarto que seu pai fora morto.

***

Sandra chegou em casa tão tarde como de costume. Aquele dia fora especialmente cansativo para ela. Quando abriu a porta de casa, levou um enorme susto. Ao ligar ao ligar interruptor, a luz não acendeu. Flashes passaram pela sua cabeça e a sensação horrível que as lembranças lhe causaram a tomou. Ao passar pelo corredor, ainda no escuro, chegou à sala e, ao passar pelo sofá, algo a agarrou. Seu coração deu um salto e ela derrubou as compras que trazia no chão. Era Milena.

***

Aquele dia também fora especialmente ruim para Milena. Como acordou indisposta, não foi para aula. Ela viu a sombra o dia inteiro. Já não aguentava mais. Ficou simplesmente enrolada em seu cobertor, cantando, tentando afastar o medo, mas não passava. E não podia tirar a cabeça do cobertor que via a sombra a encarando. Deu graças a deus quando a mãe chegou, e pulou em cima dela quando chegou. Ela não saiu de perto da mãe nem por um segundo. Tomaram banho juntas, comeram juntas e foram dormir.

***

Na hora de dormir, Sandra deitou e, como de costume, Milena a abraçou. Depois de um tempo, Milena se afastou e começou a fazer carinho em sua nuca e, assim, adormeceu. O sono foi ruim. A noite inteira foi acompanhada com pesadelos. Todos tinham sangue e vozes.

***

Sentiu o tradicional carinho na nuca e acordou um pouco atordoada. Olhou para o relógio e viu que já passava um pouco da cinco da manhã. Ótimo! Atrasada, pensou. Olhou para trás e, surpresa, não viu a filha. Mas viu a porta do banheiro aberta.

Ainda com sono, levantou e foi ao banheiro em direção ao banheiro. Terminou de abrir a porta e acendeu a luz. Sangue. Muito sangue. Ficou petrificada. Milena estava amarrada pelo pescoço com uma corda, com o corpo cortado,
do pescoço ao púbis.

-Nããããããão!!! De novo, não! Por favor...

Quando ia correr em direção da filha, seu corpo simplesmente parou. Não conseguia se mexer. Seu rosto foi sendo virado em uma direção, sem que ela quisesse. Quando o movimento do rosto cessou, ele estava voltado para o canto superior do banheiro. Havia algo lá. Era um tipo de animal, negro, parecido com um humano, mas com extremidades pontudas e membros extremamente magros. Seu coração tremeu de tal forma que ela imaginou que estivesse morrendo. O choque foi imenso. Ele estava no canto da parede como se fosse uma aranha. Seu rosto, lentamente, foi se de virando até ir de encontro ao dela, mas de cabeça para baixo. Os olhos pareciam vidrados nela, e os dentes pontudos eram curvos, dando um aspecto ainda mais terrível. Com um pulo rápido, ele se pôs de frente à Sandra, ainda paralisada. Sua boca emitia um estranho ruído. Parecia prazer.

Ele se aproximou um pouco mais de Sandra, chegando a ficar a milímetros de seu rosto. O terror que ela sentia era inexplicável. Só conseguia pensar na filha. Milena... De repente, os braços da criatura a envolveram e sua a vista foi escurecendo. Ele colocou a boca próximo ao seu ouvido, fazendo carinho em sua nuca, disse...

-Demônios também fazem carinho.


Conto escrito por Victor Gomes.
Mande seu conto para contosdomedo@gmail.com.


Sabine d'Alincourt
@featsabi

Um comentário:

  1. Pra vocês que gostam de contos de terror, deem uma conferida no meu blog
    http://oficinadoshorrores.blogspot.com.br/

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